O lado de Gil: palanque trocado, compromisso esquecido

Maquiavel escreveu, há cinco séculos, que os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do patrimônio. Em Santo Antônio da Platina, a máxima ganhou uma edição local e atualizada: esquece-se mais depressa o palanque de 2024 do que a carreata de hoje. E o prefeito Gil, que sabe ler o vento melhor que qualquer tratadista florentino, já está navegando na nova direção.

Santo Antônio da Platina viu, nos últimos dias, uma cena que diz mais do que qualquer discurso: a carreata organizada pelo grupo do governador Ratinho Júnior em apoio à candidatura de Sandro Alex, com o prefeito Gil em posição de destaque entre buzinas, bandeiras e abraços. Quem acompanha a política local sabe que a foto de hoje não combina com a foto de 2024. E é exatamente esse descompasso que o Café com Pimenta resolveu colocar na mesa.

Em sua campanha à Prefeitura, no ano de 2024, Gil Martins construiu seu palanque com um nome de peso: o senador Sérgio Moro esteve ao lado dele em Santo Antônio da Platina. Há registros fotográficos do encontro, com o senador ao lado do então candidato, botton “Gil 10” no peito, palco montado, palanque oficial. O governador Ratinho Júnior, vale registrar, não esteve nesse palanque. Quem esteve no palanque do adversário, apoiando a continuidade da gestão Zezão ao lado de Alexandre Levati, foi Sandro Alex.

E que botton, diga-se. Aquele que Moro carregou no peito, em palco, diante das câmeras, foi descartado com a mesma naturalidade com que se joga fora um panfleto molhado pela chuva. Em tese, caráter não é pra todos; e palavra, para quem não a tem, é levada ao vento, ou seduzida por uma carreata. O símbolo que representava uma aliança virou sucata política, e ninguém na gestão se deu ao trabalho de explicar o descarte.

Passados os dois anos, o tabuleiro virou. O prefeito que se elegeu com a chancela de Moro aparece hoje publicamente na carreata do grupo de Ratinho Júnior, apoiando a candidatura de Sandro Alex, o mesmo governador que em 2024 não tinha lugar no palanque gilista. Sun Tzu advertiu que não se deve firmar aliança sem conhecer antes as intenções do vizinho; em Santo Antônio da Platina, a lição parece ter sido lida de trás para frente: firma-se a aliança, e as intenções se ajustam depois, conforme o vento.

E a pergunta que não cala: e o compromisso com Sérgio Moro, que dividiu palco, palanque e campanha em Santo Antônio da Platina, para onde foi? Ficou guardado em qual gaveta? Foi entregue em qual troca? Ou simplesmente evaporou, como tantas promessas feitas em palco, entre elas a de uma UPA funcionando em dezembro de 2025, com distribuição de medicamentos, que a cidade espera até hoje?

Será que Moro foi traído? Em tese, talvez o senador esteja experimentando do próprio veneno, já que a traição, historicamente, é um perfil que se atribui ao próprio Moro. O Café com Pimenta não pretende resolver a conta alheia. A pergunta que fica em Santo Antônio da Platina é outra, e ela é local: qual é o lado do Gil?

A resposta, infelizmente para quem esperava coerência, já está nas ruas. O prefeito de Santo Antônio da Platina tem um lado: o dele. La Rochefoucauld ensinou que a hipocrisia é a homenagem que o vício rende à virtude. Em Santo Antônio da Platina, nem a homenagem sobra: o que se vê é a virtude sendo dispensada do palco antes mesmo do fim do espetáculo, sem cerimônia, sem nota oficial, sem o menor constrangimento. É quase admirável a agilidade: o homem que aprendeu a sorrir para a câmera de um lado do tabuleiro reaprende a sorrir para o outro lado antes que a tinta do botton de campanha desbote.

E há um contraste que a própria cidade registra sem precisar de jornal para perceber. Na gestão passada, Santo Antônio da Platina era um canteiro de obras: máquinas nas ruas, serviços em andamento, obra visível em cada esquina, gestão que se media em concreto e asfalto. Hoje, o que se vê é uma cidade sem obras. O que se vê é o troca-troca de secretários. Não há continuidade, não há firmeza e, em tese, não há governança. Um prefeito que não consegue manter um secretário no cargo dificilmente conseguirá manter uma palavra. E a palavra, em Santo Antônio da Platina, sempre teve peso: é um povo onde a palavra dada é palavra cumprida, gente honesta e séria, que não tolera falta de caráter. Não por acaso, os ruralistas de Santo Antônio da Platina, que formam uma frente ampla em apoio a Sérgio Moro na cidade, amargaram a decepção de ver Gil Martins desfilando na carreata do grupo de Ratinho Júnior: quem aposta na lealdade alheia carrega o risco de descobrir, tarde, que apostou em quem não a tem.

E não é só no palanque que a memória falha. É o mesmo prefeito que prometeu, em campanha, funcionamento pleno da UPA em dezembro de 2025, com distribuição de medicamentos, e segue devendo à população o cumprimento do que anunciou. O mesmo prefeito que viu a cidade continuar dependendo de atendimento em outras regiões, com platinenses deslocando-se a Jacarezinho e a outros municípios em busca do que deveria estar à porta de casa. O mesmo prefeito que herdou a promessa de um Hospital do Câncer, anunciada há quase uma década, e que segue distante da realidade. George Orwell escreveu que a linguagem política é desenhada para fazer mentiras soarem como verdades. Em Santo Antônio da Platina, o problema é anterior: é fazer promessas soarem como planos.

Não é crime trocar de aliado. Política se faz de rearranjos, e ninguém espera santidade dos palanques. O que se cobra aqui é outra coisa: é a distância entre o discurso de campanha e a gestão, entre o palco de 2024 e a carreata de hoje, entre a promessa feita com o senador ao lado e a lealdade silenciosamente transferida ao governador que nunca esteve lá. Quando o único eixo fixo da política local é o interesse do próprio mandatário, o eleitor deixa de ser parceiro e passa a ser plateia. E, no caso platinese, plateia de um espetáculo cujo roteiro muda de ato em ato, sempre com o mesmo ator no centro e sempre com um aliado novo no elenco de apoio.

O Café com Pimenta responde, portanto, à pergunta que a cidade faz: o prefeito de Santo Antônio da Platina tem um lado, o dele. E enquanto a UPA não funciona como prometida, enquanto os medicamentos não chegam como anunciados, enquanto as obras pararam e os secretários giram na roleta da gestão, e enquanto o Hospital do Câncer segue no papel, cada carreata, cada palanque e cada abraço de campanha deve ser lido com a lupa que a população aprendeu, da pior maneira, a usar.

A cidade não esquece quem estava ao lado em 2024. E também não esquece o que foi prometido, nem o que ficou devendo. Maquiavel, se vivesse hoje, reconheceria o método. O que talvez não reconhecesse é a falta de resultado: até o florentino, afinal, cobrava do príncipe alguma obra de pedra e cal. Em Santo Antônio da Platina, o que se ergue com mais rapidez é palanque novo..

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