Lula presidente reeleito, a vida começa aos 80

Aos 80 anos, o metalúrgico que aprendeu a ler depois dos 20 derrotou as pesquisas, virou o segundo turno e chega ao quarto mandato com o apoio de quem tem mais idade — e mais memória do que já foi este país

O resultado foi declarado às 21h08 de domingo pelo Tribunal Superior Eleitoral. Luiz Inácio Lula da Silva, 80 anos — completa 81 nesta terça-feira, 27 —, foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 4.430.191 votos, 3,58 pontos percentuais, mais larga do que a de 2022 sobre Jair Bolsonaro.
Faltava tudo. Faltava o primeiro lugar, que ele não tinha. Faltava a pesquisa, que o dava atrás. Faltava, sobretudo, a aritmética que qualquer comentarista considerava resolvida: dos 16 levantamentos nacionais divulgados entre quinta e sábado, 14 apontavam vantagem para o adversário. Apenas dois, Vox Brasil e Colectta, colocaram Lula à frente. Foram os dois que chegaram mais perto das urnas.

A VIRADA QUE A PLANILHA NÃO VIU
Em 4 de outubro, Lula havia terminado atrás: 45,16% contra 47,03% de Flávio. Nunca, em toda a história das eleições diretas brasileiras, alguém que perdeu o primeiro turno havia vencido o segundo. A vantagem do senador no primeiro turno e o favoritismo das pesquisas produziram a certeza mais confortável e mais frágil da política: a de que o eleitor já teria decidido.
Não tinha. Entre um turno e outro, Lula somou 10.376.694 votos. Flávio somou 3.721.538. A abstenção caiu de 21,08% para 19,21% — cerca de 3,3 milhões de brasileiros que estavam em casa no primeiro turno saíram de casa no segundo. É a menor abstenção de um segundo turno desde 2018. Em Minas Gerais, onde o senador havia liderado, Lula virou com 50,41% contra 49,59%.
A campanha mudou de rota, trocou o conforto de São Paulo pelo interior, deu peso às propostas de um quarto mandato e falou de forma mais direta: vídeos em selfie, conversa olho no olho. Elegeu-se, entre outras coisas, porque voltou a pedir voto em quem costuma ser tratado como já resolvido — e porque o eleitor mais velho decidiu que ainda não estava.

QUEM SAIU DE CASA
Os números dos idosos neste pleito não são um detalhe simpático no fim da matéria. São a espinha dorsal da virada.
No primeiro turno, 8,77 milhões de brasileiros com 70 anos ou mais foram às urnas, entre 17,25 milhões aptos. Em 2022 eram 6,13 milhões. Um salto de 43% em números absolutos — o único grupo etário que cresceu, enquanto os menores de 70 recuaram 1,07 milhão de votantes. Foi a primeira vez desde 2014 que mais da metade desse eleitorado compareceu. A abstenção entre eles caiu 9,7 pontos percentuais, de 58,86% para 49,19%.
A curva é implacável e reveladora. Entre 70 e 74 anos, 68,77% votaram. Entre 75 e 79, 52,23%. Entre 80 e 84, 37,12%. Entre 90 e 94, 13,46%. No primeiro turno, 2.141 eleitores com mais de 100 anos — de um contingente de quase 300 mil centenários cadastrados — foram até a urna.
Há um incentivo prático nisso, e é preciso dizê-lo: o voto vale como prova de vida automática para aposentados e pensionistas do INSS. Há também um incentivo político, assumido sem pudor: a campanha de Lula mobilizou famílias para levar pais e avós às urnas no segundo turno, e a queda da abstenção entre o primeiro e o segundo turno acompanhou esse esforço. O Datafolha de setembro já mostrava que o eleitor de 70 anos ou mais tinha mais interesse em política e preferência por Lula do que a média do eleitorado.
O Tribunal Superior Eleitoral não divulga cruzamento oficial entre faixa etária e voto — a correlação é indicativa, não é resultado apurado. Mas o volume é fato: trata-se de um contingente maior do que a própria margem que decidiu a eleição. Cléa Klouri, do Movimento Voto 70+, resumiu o fenômeno ainda no primeiro turno: “O crescimento da participação dos brasileiros com mais de 70 anos é um sinal de que o envelhecimento não significa afastamento da vida política.”
A frase tem consequência. Num país que envelhece — o eleitorado de 60 anos ou mais passou de 32,9 milhões para 37,5 milhões, de 21% para 23,6% do total —, o voto facultativo dos mais velhos deixou de ser exceção estatística e virou bloco decisório. Em 2026, quem saiu de casa aos 80 saiu para defender algo que muita gente de 30 achou que podia deixar para depois.

O MENINO DE GARANHUNS
Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no agreste pernambucano, o sétimo de oito filhos. A família migrou para São Paulo quando ele era criança. Foi engraxate, vendedor de amendoim, torneiro mecânico. Perdeu um dedo numa prensa. Aprendeu a ler com 21 anos, no curso de supletivo do Sindicato dos Metalúrgicos.
Presidiu o sindicato do ABC durante a ditadura e a redemocratização, comandou as greves que criaram o novo sindicalismo e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em 1980. Perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a quarta, em 2002. Governou com a redução da desigualdade como eixo, saiu em 2010 com aprovação recorde, voltou em 2023 depois de 580 dias preso — condenações anuladas pelo Supremo em 2021 —, venceu Jair Bolsonaro e agora vence o filho dele.
São quatro mandatos por voto direto, feito que ninguém mais alcançou no Brasil. Na noite da vitória, atribuiu a virada a manifestações de “honradez, nacionalismo e democracia” do povo brasileiro.

O título desta matéria é uma brincadeira que o calendário autorizou: ele foi reeleito aos 80 e completa 81 anos nesta terça. Mas é também o retrato de uma eleição em que a experiência foi às urnas com disposição de jovem — e em que os mais velhos ensinaram que democracia não é coisa que se delega. Quem tem memória de ditadura sabe o preço do voto. Talvez por isso tenha sido justamente essa gente a sair de casa para defendê-lo.
E a vida, como se vê, não começa só aos 80. Recomeça..

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