
Primeiro confronto do segundo turno expôs um contraste brutal: de um lado, um candidato que trouxe perguntas que exigiam resposta e propostas com nome e sobrenome; do outro, frases de efeito, provocações e promessas que evaporam quando se pergunta “como?”.
Foi domingo de debate, e quem esperava ver dois projetos de país se enfrentando viu outra coisa. O primeiro confronto presidencial do segundo turno, transmitido pela Band na noite de 18 de outubro, reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) a exatamente uma semana da votação, com o país dividido entre os 47,03% de votos de Flávio e os 45,15% de Lula no primeiro turno. Dois candidatos, nenhum dos dois tinha pisado num debate antes, e a expectativa era de que o encontro servisse para o eleitor indeciso escolher. A imprensa internacional resumiu o que viu em duas palavras: “caótico” e “tenso”. O jornal português Público foi mais direto: quem esperava descobrir como o Brasil seria governado nos próximos quatro anos saiu decepcionado.
A NOITE EM QUE O BRASIL ESPERAVA PROJETO DE PAÍS
O problema não foi o confronto. Foi o nível dele. O Estadão conduziu um grupo qualitativo com 12 eleitores, entre indecisos e apoiadores de cada lado, e as palavras escolhidas pela plateia para descrever o embate foram “decepcionante”, “triste”, “vergonhoso”, “infeliz”, “irresponsável”, “uma piada”. O cientista político Renato Dorgan, do instituto Travessia, resumiu a avaliação: Lula pareceu repetitivo e um tanto demagogo, enquanto Flávio soou vazio e agressivo demais.
Repare bem nesse veredito. Ele diz que houve um candidato que pecou pela forma, e outro que pecou pela substância. A diferença importa.
OS GOLPES DE QUEM VEIO COBRAR CONTAS
Se o primeiro bloco foi dominado pelo bate-boca, os melhores minutos de Lula vieram quando ele parou de rebater e passou a perguntar. E perguntar com endereço certo. Ele repetiu à exaustão a pergunta sobre os R$ 134 milhões que Flávio teria pedido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para bancar o filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro: “O que você fez com esse dinheiro? É só explicar. Onde você colocou esse dinheiro?” A resposta do senador veio na base do desvio: o dinheiro foi todo para o filme. Explicação, o Brasil ainda espera.
Lula também desafiou o adversário a abrir os sigilos bancário e telefônico antes do segundo turno, para que o povo “saiba quem é ladrão nesse país”, oferecendo abrir os da própria família inteira. A resposta de Flávio foi uma piada pronta (“o seu dinheiro é por fora, não está na sua conta”) e, depois do debate, outra piada, dizendo que Lula “não tem celular”. Num país cansado de escândalos, a recusa em aceitar o exame público diz mais do que qualquer discurso.
Teve mais. Lula lembrou que Flávio foi advogado do PM Bruno Delaroli, acusado de matar Ana Clara, de 5 anos; que homenageou o miliciano Adriano da Nóbrega e empregou familiares dele no gabinete da Alerj; que apoiou projeto que dificultaria rastrear munições. Quando Flávio o provocou com o voto dos presidiários, veio a resposta que já circula em todo lugar: “Seu pai votou em mim”. E quando o senador quis se aproximar no palco, o presidente selou a distância: “Da família Bolsonaro eu quero distância. De miliciano eu quero distância.”
FRASES DE EFEITO NÃO GOVERNAM NINGUÉM
Do outro lado do palco, o que se viu foi o candidato do som, não da substância. Flávio prometeu “declarar guerra ao narcoterrorismo”, classificar facções como organizações terroristas e recuperar “cada metro” do território ocupado pelo crime, sem explicar como. Prometeu juros em queda rápida, um Ministério da Prosperidade, transformar a Caixa no “Itaú das favelas” e fazer a população “voltar a encher o carrinho do supermercado”. Prometeu um “SUS padrão Einstein, porque você merece”, no mesmo dia em que admitiu, em mea-culpa raro, que a saúde “não teve o melhor resultado no governo Bolsonaro”.
A plateia da pesquisa do Estadão sentiu exatamente isso. Uma eleitora indecisa reclamou que o candidato “não responde nada”. Um apoiador declarado de Flávio terminou a noite indeciso, apontando justamente a falta de respostas. Os próprios apoiadores do senador disseram que o plano econômico “não está bem explicado” e que ele foi “vago” em outras áreas. Agressivo ele foi, e muito. Mas agressividade não é programa de governo, e provação não põe comida na mesa.
NO FIM, QUEM FALOU DE GENTE?
Vale a pena reparar no que cada um levou ao palco. Lula citou a PEC da Segurança Pública, que dá à União poder de coordenar o combate ao crime com estados e municípios; o Mais Médicos e o programa Agora Tem Especialistas; o Desenrola e a Lei Geral da Pequena e Média Empresa. Falou das mais de 716 mil mortes da pandemia que, segundo ele, poderiam ter sido evitadas em parte se o governo tivesse ouvido a ciência, e de um país onde “muito dinheiro na mão de pouco significa pobreza e miséria, e pouco dinheiro na mão de muito significa distribuição de renda”. Até reconheceu, com realismo raro em campanha, que o custo de vida está caro, mas estava mais caro no governo do pai do adversário.
No grupo qualitativo do Estadão, foi justamente uma eleitora indecisa que, ao final do debate, converteu o voto a Lula. O motivo? A falta de propostas de Flávio, a quem ela não viu “maturidade” nem “capacidade” de governar. Não foi um discurso bonito que a convenceu. Foi a ausência de conteúdo do outro lado.
A PERGUNTA QUE FICOU
O g1 resumiu bem o contraste estratégico: de um lado, Lula, analógico, acostumado ao confronto político tradicional; do outro, Flávio, digital, herdeiro da linguagem de Trump e Marçal, apostando em provocações, frases de efeito e cortes para viralizar. O problema é que governo não é corte de vídeo. Algumas frases de Flávio renderam, sim, um bom entretenimento, como a da carteira vazia contra “o único condenado por corrupção no palco”. Mas o eleitor que precisa decidir o futuro do país não vive de zoeira.
Numa eleição, o que separa um estadista de um influencer é uma pergunta simples: o que você fará, com quem e quanto custa? No debate da Band, só um dos dois tentou responder. O outro preferiu o ataque, a promessa vazia e o palco como ringue. O Brasil que vai às urnas no dia 25 pode até ter achado o show ruim, e tinha razão. Mas entre quem pediu para ser desafiado na verdade e quem pediu apenas para ser seguido, a escolha, no fundo, nunca foi tão clara.
