Morre Frei Daniel, o último pároco capuchinho de Santo Antônio da Platina

Religioso de 86 anos faleceu na noite de domingo (18), em Curitiba. Com ele, encerra-se um capítulo de 83 anos de presença dos frades capuchinhos na cidade, que deixaram a paróquia em 2012, quando a Diocese de Jacarezinho não renovou o contrato

Santo Antônio da Platina – A comunidade católica platinense perdeu, na noite deste domingo (18), um de seus pastores mais queridos e históricos. Morreu aos 86 anos, em Curitiba, o frei capuchinho Daniel Heinzen, conhecido como frei Daniel — o último pároco capuchinho de Santo Antônio da Platina. O religioso estava internado no Hospital Nossa Senhora das Graças e não resistiu a problemas cardíacos, falecendo às 21h48.
Com uma vida dedicada à Igreja, frei Daniel marcou profundamente o Norte Pioneiro. Foi pároco em Santo Antônio da Platina por vários anos e recebeu, em 2012, o título de Cidadão Honorário do município, em reconhecimento aos serviços prestados à comunidade.

O fim de um ciclo de 83 anos
A morte de frei Daniel reabre a memória de um dos momentos mais dolorosos da história religiosa da cidade: a saída dos freis capuchinhos da paróquia.
A paróquia foi criada em 8 de abril de 1928 por dom Fernando Taddei, primeiro bispo da Diocese de Jacarezinho, e entregue aos cuidados dos Frades Capuchinhos, que iniciaram seus trabalhos na cidade em 10 de abril de 1928. Foram 83 anos de presença contínua — até que, na semana anterior ao Natal de 2011, a Diocese de Jacarezinho, conduzida pelo bispo dom Antônio Brás Benevente, comunicou a decisão de não renovar o contrato que concedia aos capuchinhos a direção da paróquia.

A medida provocou forte reação na sociedade platinense. Conselhos e pastorais organizaram passeatas, carreatas e um abaixo-assinado pedindo a revogação da decisão; lideranças locais chegaram a apelar ao então arcebispo de Londrina, dom Orlando Brandes. O ex-deputado federal Francisco Octávio Beckert, o Chico da Princesa, que tentou interceder junto ao bispo, classificou a postura como “autoritária” e lamentou que a Igreja pudesse se limitar “a realizar batizado, missa e casamento”, deixando de lado o trabalho com os mais necessitados.
Em 2012, portanto, frei Daniel e os demais capuchinhos deixaram a paróquia, encerrando um capítulo histórico. Eles se foram, mas a marca que deixaram permanece viva: a permanência dos capuchinhos em Santo Antônio da Platina foi presença histórica, símbolo de fé, símbolo de amor e caridade ao próximo.

Uma presença que construiu a cidade
O trabalho dos freis não se restringiu ao altar. Como lembrou à época o jornalista Fábio Galhardi, editor do jornal “A Paróquia”, os capuchinhos “fizeram história, construindo alicerces espirituais e materiais”: foram eles que ergueram muitas das capelas da região e projetos sociais como o Lar Jesus Adolescente, a Promoção Humana e o Francisco Pró-Vida, além de impulsionar o crescimento do número de católicos e das pastorais e movimentos no município.
Nascido em Almirante Tamandaré (PR), em 26 de julho de 1940, frei Daniel iniciou a caminhada religiosa cedo: vestição em 1960, profissão perpétua em 1964 e ordenação presbiteral em 6 de agosto de 1967. Dedicou 62 anos à vida religiosa e 59 ao sacerdócio, testemunhando a vocação franciscana por meio da fé, da fraternidade e do serviço.

Além de Santo Antônio da Platina, exerceu o ministério na paróquia das Mercês, em Curitiba, em Florianópolis (SC), na Paróquia São Francisco de Assis, em Umuarama, e, nos últimos meses, em Foz do Iguaçu. Foi também pároco em Uraí, no Norte do Paraná, onde dirigiu o antigo seminário instalado no município, dedicando-se à formação de novos religiosos.

“Vale a pena ser bom, vale a pena fazer o bem”
Mais do que os títulos e as funções, foi a figura humana de frei Daniel que conquistou milhares de fiéis. Homem simples, fraterno, presente na vida das pessoas — nos batizados, nas primeiras comunhões, nos casamentos e nos momentos difíceis —, deixou um legado que a comunidade platinense não deixará esquecer, traduzido em uma frase que repete o Evangelho em palavras de todos:
“Vale a pena ser bom, vale a pena fazer o bem.”

Velório e sepultamento
O corpo de frei Daniel está sendo velado no Convento e Casa de Retiros Santo Antônio, na Rua João Govaski Filho, 900, em Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba. O sepultamento ocorrerá no Cemitério do Convento Santo Antônio de Botiatuba, em espaço destinado aos frades capuchinhos e seminaristas da Ordem.

Em dias sombrios como estes — em uma sociedade que perde, e está perdendo, valores como o amor, a misericórdia e a solidariedade —, a frase que frei Daniel repetia por onde passou soa como um testamento: “vale a pena ser bom, vale a pena fazer o bem.” Em um mundo que trata os pobres como descartáveis, que pune os que menos têm e enriquece os que mais exploram, o ensinamento do frei é um chamado à reconciliação: é preciso estar ao lado dos últimos, dos esquecidos, dos que o sistema insiste em deixar para trás — foi assim que ele viveu, na construção dos projetos sociais, no cuidado com os mais necessitados, na fé posta a serviço da fraternidade. Que sua partida nos lembre de que a bondade ainda é o caminho — e que lutar por uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária é a melhor homenagem à sua memória. Ele se foi, mas deixa um legado que nenhuma escuridão apaga.

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