Lula ‘dá show’ na ONU: discurso de soberania arranca aplausos e domina a imprensa internacional

Em seu 10º discurso como presidente na Assembleia Geral, Lula abriu o debate em Nova York, foi aplaudido por líderes mundiais e mandou recados diretos aos Estados Unidos sem citar Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu, nesta terça-feira (22), o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, com um discurso que arrancou aplausos da plateia de líderes mundiais e dominou as manchetes da imprensa internacional. Foi a décima vez que o petista discursou na tribuna das Nações Unidas como presidente da República, tradição que o Brasil mantém como primeiro orador desde 1955.
A fala, de mais de 20 minutos, começou em tom combativo: “O sentimento que me move hoje é o da indignação”. Lula afirmou que a ONU “está falhando em uma das suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do flagelo da guerra”, e cobrou a reforma do Conselho de Segurança, criticando o direito de veto que teria dado às grandes potências “o privilégio da insensatez”.

Aplausos no plenário
Segundo registros da cobertura da imprensa, o presidente brasileiro foi aplaudido por pelo menos quatro vezes durante a apresentação: ao ser anunciado, antes de subir à tribuna; ao afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”; ao citar o reconhecimento do tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade; e ao encerrar o discurso.

A frase do “quintal” foi o momento mais celebrado do plenário. Em referência direta às declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que retomou a ideia da América Latina como “quintal dos EUA” à luz da Doutrina Monroe, Lula reagiu: “A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, mas o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. E completou: “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos”.

Recados em todas as frentes
O discurso percorreu os principais temas da agenda nacional e global. Lula defendeu o pagamento instantâneo como patrimônio público e avisou: “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX”. Criticou os “tecno-oligarcas” e a corrida digital “sem freios éticos à revelia da ONU”. No comércio internacional, disse que a OMC “respira por aparelhos” e atacou o uso de tarifas como “armas de coerção e chantagem”.

Na área ambiental, o presidente afirmou que o Brasil pode conciliar desenvolvimento e preservação, citou a queda do desmatamento na Amazônia ao menor nível em 11 anos e defendeu que as riquezas naturais, como terras raras e a Margem Equatorial, sejam exploradas com geração de valor e transferência de tecnologia para o país. Sobre o crime organizado, disse que “não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas, precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”.

Democracia e eleição
A parte final foi abertamente eleitoral, a um passo do primeiro turno de 4 de outubro. Sem citar o adversário, Flávio Bolsonaro (PL), Lula disse que o Brasil decidirá entre “democracia e negacionismo” e afirmou que os brasileiros escolherão “entre o futuro e o passado”. “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, declarou, em meio à preocupação do governo com eventual interferência externa no pleito.

Eco no mundo
O discurso teve ampla repercussão internacional. “The New York Times”, “Reuters” e “Bloomberg” registraram a fala. Na América Latina, o argentino “Clarín” destacou: “Lula abre o debate na Assembleia Geral: ‘A ONU está falhando em livrar a humanidade do flagelo da guerra'”. O uruguaio “La Nación” trouxe: “Lula emite alerta na ONU: ‘A democracia está mais uma vez ameaçada'”.

Nem todos, porém, aplaudiram. A delegação dos Estados Unidos presente no plenário não aplaudiu em momento algum, e o presidente Donald Trump não estava no salão durante a fala do brasileiro. Trump discursou em seguida, e os dois não se encontraram nem se cumprimentaram nos bastidores, com um intervalo de quatro minutos entre a saída de um e a entrada do outro. A cena, registrada pelas câmeras, reforçou o clima de tensão diplomática entre os dois países, agravado pelo tarifaço americano e pelas ameaças de sanções e revogação de vistos a autoridades brasileiras.

Para o presidente, a mensagem da tribuna da ONU foi clara: o Brasil quer parcerias, não subordinação. “Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Democracia ou extremismo? Soberania ou subordinação? Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”, concluiu, sob aplausos finais do plenário.

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