
Sem Requião Filho na segunda rodada, o eleitorado de esquerda tende a despejar o voto de protesto em Sandro Alex, que já aparece empatado com o senador na simulação de segundo turno. Mas o candidato da continuidade carrega outra vantagem que as pesquisas de intenção de voto não captam por inteiro: o legado de oito anos de um governo com aprovação histórica
A 12 dias do primeiro turno, a eleição do Paraná tem um fiel da balança que as pesquisas ainda não dimensionam por inteiro: o eleitorado de esquerda. Se Sergio Moro (PL) confirmar a liderança e o segundo turno for disputado contra Sandro Alex (PSD), o ex-juiz da Lava Jato vai encontrar um muro praticamente intransponível à sua esquerda. E a leitura do Café com Pimenta é direta: esse contingente, em sinal de protesto, pode empurrar Sandro Alex ao Palácio Iguaçu.
A esquerda sem candidato na segunda rodada
O PT não lançou nome competitivo na disputa pelo governo. A esquerda se unificou em torno de Requião Filho (PDT) para o Palácio Iguaçu e de Gleisi Hoffmann (PT) para o Senado. O problema é que o candidato do campo petista trava uma batalha dura pela segunda vaga. No IRG divulgado na terça-feira (22), Moro tem 39,7%, Sandro Alex 27,8% e Requião Filho 21,3%, com margem de erro de 2,83 pontos. No Real Time Big Data de segunda-feira (21), o cenário é semelhante: 35%, 27% e 22%. Na Paraná Pesquisas de sexta (18), a ordem muda: Moro com 44,7%, Requião com 23% e Sandro com 19,7%. Os institutos usam metodologias e períodos de campo diferentes, e os números não podem ser somados como uma série única, mas todos convergem num ponto: se a disputa for decidida entre Moro e Sandro, o eleitor do campo petista ficará órfão de candidato na segunda rodada.
A rejeição a Moro é o motor do protesto
É exatamente aí que entra o fator decisivo. A rejeição ao ex-juiz da Lava Jato no eleitorado de esquerda paranaense é gigantesca, historicamente consolidada desde os anos em que ele comandou as operações em Curitiba. No levantamento do Real Time, 39% dos entrevistados afirmaram que não votariam em Moro de jeito nenhum, o segundo maior índice entre os três líderes, atrás apenas de Requião Filho, com 42%. Sandro Alex tem rejeição de 30%.
Esse dado ganha peso quando se olha a simulação de segundo turno do mesmo instituto. No embate direto, Moro e Sandro Alex aparecem empatados dentro da margem de erro, com 42% a 38%. Contra Requião, o senador venceria com folga (52% a 30%). Ou seja: o nome que mais concentra rejeição é justamente o que Moro não quer enfrentar. E a tendência natural do eleitor que rejeita Moro, quando o adversário dele é um candidato do Palácio Iguaçu, é ir de voto em voto, mesmo sem entusiasmo, para derrotar o ex-juiz.
O voto anti-Moro pode virar o jogo
O argumento do Café com Pimenta é o seguinte: sem Requião na disputa final, a esquerda não consegue atrair esses votos para um nome próprio, e o pragmatismo do “qualquer um, menos ele” assume o controle. Esse contingente, que hoje aparece diluído entre indecisos e parte dos 10% de brancos e nulos na simulação do segundo turno, tende a migrar em bloco para Sandro Alex em sinal de protesto contra o ex-juiz lavajatista. Se isso se confirmar, o candidato governista sai de um empate técnico para uma vitória apertada ou mesmo confortável.
Sandro Alex é o candidato da continuidade de um governo aprovado por 8 em cada 10 paranaenses
Mas o segundo turno entre Moro e Sandro Alex não se resume ao voto de protesto. Há um segundo vetor empurrando na mesma direção, e ele é mais silencioso: o desempenho de oito anos de Ratinho Junior à frente do Paraná, um dos governos com maior aprovação da história política recente do estado. As pesquisas de avaliação da gestão são contundentes. A Quaest mediu 81% de aprovação em julho e 79% em agosto; a Folha de Londrina registrou 80% no início de setembro; a Paraná Pesquisas chegou a 84,3% em março e bateu recordes sucessivos ao longo do mandato. Em qualquer leitura, o governo que Sandro Alex representa é aprovado por cerca de oito em cada dez paranaenses.
Os números da expansão econômica sustentam essa avaliação. Quando Ratinho assumiu, em 2019, o PIB paranaense era de R$ 466 bilhões; a projeção divulgada pelo próprio governo é de chegar perto de R$ 800 bilhões em 2025, praticamente dobrando a economia do estado em um mandato. O orçamento de 2026, de R$ 81,6 bilhões, é o maior da história do Paraná, com R$ 7,1 bilhões destinados a obras e melhorias estruturais. Entre 2019 e 2026, o estado aplicou R$ 7,3 bilhões em infraestrutura, em rodovias, contornos e obras como a Ponte de Guaratuba, e atraiu investimentos privados em ritmo acelerado, como os R$ 3,4 bilhões anunciados em apenas 20 dias. Sandro Alex, que foi secretário de Infraestrutura e Logística, projeta levar o Paraná ao posto de terceira economia do país.
Intelectuais paranaenses podem pender para a continuidade
Há ainda um segmento que tende a pesar na balança a favor de Sandro Alex: os intelectuais paranaenses. Não se trata do eleitorado de massa, mas de formadores de opinião, professores universitários, pesquisadores e profissionais liberais que acompanham de perto os números do estado. Para boa parte desse grupo, o Paraná vive um ciclo de expansão que não deveria ser interrompido no meio. A leitura é pragmática: com Moro, o estado trocaria uma gestão testada e aprovada por um projeto de poder pessoal, construído sobre a ruptura e o confronto; com Sandro, manteria a continuidade administrativa que transformou o Paraná em referência nacional de investimento e infraestrutura.
A esses intelectuais, pesa também a questão institucional. A trajetória de Moro é marcada por embates com os demais poderes, desde a crise com o Supremo Tribunal Federal na Lava Jato até a ruptura com o próprio governo que o nomeou ministro. O diálogo entre os poderes, essencial para a governabilidade e para a atração de investimentos, é visto por esse grupo como um ativo do atual modelo de gestão paranaense, que manteve relação produtiva com a Assembleia Legislativa, os prefeitos e o setor produtivo. Na visão desses formadores de opinião, o Paraná precisa de continuidade para consolidar a expansão, e não de um governador em permanente estado de guerra institucional.
O risco da conta
Há, claro, uma ressalva honesta na conta. O eleitorado de esquerda pode também reagir com abstinência, em branco ou nulo, diante da obrigação de escolher entre um ex-juiz da Lava Jato e um candidato do grupo de Ratinho. Parte desse contingente carrega rejeição aos dois. E o eleitorado que aprova o governo não transfere automaticamente o voto ao candidato do governador, como mostram os próprios números de Sandro, que ainda não decolou nas pesquisas apesar da aprovação recorde de Ratinho. Mas a soma dos dois vetores, o voto de protesto contra Moro à esquerda e o voto da continuidade no centro, tende a falar mais alto do que a antipatia isolada por Sandro. Em uma disputa já empatada na largada, qualquer deslocamento desses blocos decide o Palácio Iguaçu.
Faltam 12 dias para o primeiro turno. Moro ainda não liquida a eleição, a segunda vaga segue em aberto entre Sandro e Requião, e o PT, mesmo sem candidato, pode ser quem entrega a chave do cargo mais disputado do Paraná. Se o segundo turno vier, o voto de protesto contra o ex-juiz lavajatista se soma à força da continuidade de um governo aprovado por oito em cada dez paranaenses. E essa combinação pode transformar Sandro Alex em governador..
