7 mil votos para Lula, mil para Valter: a esquerda de Santo Antônio da Platina tem eleitorado — e o PT local não o representa

Enquanto o petismo nacional arranca mais de 7 mil votos na cidade e os candidatos de esquerda ao Senado passam de 3,5 mil, Valter do PT, o nome local que deveria traduzir esse eleitorado em representação, parou em 1.049 votos

Santo Antônio da Platina foi às urnas no dia 4 de outubro e, pelos números do Tribunal Superior Eleitoral, o eleitorado platinense que se identifica com a esquerda existiu — e votou. O problema é que, quando o candidato era local, esse mesmo eleitorado sumiu.

Nas urnas, Lula (PT) obteve 7.056 votos para presidente em Santo Antônio da Platina, o equivalente a 30,10% dos votos válidos. Para o governo do Paraná, o principal nome da esquerda na disputa, Requião Filho (PDT), recebeu 4.806 votos (21,94%) — o PT, vale registrar, não lançou candidato próprio ao governo do estado. No Senado, os dois candidatos do PT, Gleisi (4.727 votos) e Dr. Rosinha (3.559 votos), também tiveram votação expressiva no município, ainda que tenham ficado longe dos eleitos Filipe Barros (PL), com 11.593 votos, e Deltan Dallagnol (Novo), com 10.241.

O contraste aparece quando se olha para a disputa em que a esquerda de Santo Antônio da Platina tinha um nome da casa na corrida: Valter do PT (PT), candidato a deputado estadual, morador de Santo Antônio da Platina há mais de uma década, obteve apenas 1.049 votos na cidade — menos de um quinto dos votos que Lula recebeu dos platinenses e menos da metade do que Gleisi e Requião Filho arrancaram do mesmo eleitorado.

E não se trata de um tropeço isolado. Os registros oficiais do TSE mostram um padrão de três derrotas consecutivas na terra onde Valter mora e diz representar. Em 2020, candidato a prefeito, recebeu 368 votos — 1,66% — e ficou em último lugar entre 5 candidatos. Em 2024, tentou de novo e fez 1.233 votos (5,25%), penúltimo lugar entre 4 candidatos. Em 2026, para deputado estadual, 1.049 votos. Somadas as três candidaturas, Valter não alcançou 2.700 votos em Santo Antônio da Platina — menos da metade do que Lula obteve sozinho, em uma única eleição, neste mês de outubro.

Os números da prestação de contas no TSE tornam o quadro ainda mais explícito — e revelam o tamanho do investimento público que acompanhou essa sequência de derrotas. Em 2020, a campanha de Valter do PT à Prefeitura declarou R$ 31.308,00 em gastos. Em 2024, nova candidatura à Prefeitura, os gastos declarados saltaram para R$ 133.916,00, com receitas de R$ 139.594,00. Em 2026, na corrida por uma cadeira na Assembleia Legislativa, mais R$ 31.173,00 em despesas — recursos que, segundo a prestação de contas, vieram em sua quase totalidade do partido, ou seja, do Fundo Eleitoral, dinheiro público; levantamento da Folha Extra registrou R$ 58 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) destinados à candidatura. Somadas as três campanhas, os gastos declarados por Valter do PT à Justiça Eleitoral chegam a R$ 196.397,00 — praticamente R$ 200 mil consumidos em seis anos para conquistar, ao final, 1.049 votos na própria cidade. É legítimo, portanto, perguntar: para que serve o dinheiro público da campanha quando o candidato não consegue sequer convencer a cidade onde mora há mais de uma década?

Em tese, Valter do PT deveria ser o nome que traduzia em representação aquele eleitorado que vota em Lula, em Gleisi, em Rosinha. Na prática, foi rejeitado pela própria base: o platinense que sustenta a esquerda nas urnas presidenciais e senatoriais não levou o candidato local a sério. Para efeito de comparação, Bruna Fogaça (PL), da direita, fez 4.963 votos na cidade — quase cinco vezes mais que Valter — e Cobra Reporter (PSD) fez 2.165.

O quadro geral da cidade confirma a força da direita — e, mais do que isso, revela a força do voto por identificação, sem projeto apresentado. Sergio Moro (PL), mesmo sem apresentar projeto de governabilidade para o estado do Paraná, obteve 11.859 votos em Santo Antônio da Platina — 54,15% dos votos válidos para o governo. O mesmo caso se repete com Flavio Bolsonaro (PL): mesmo sem projetos para o país, foi o mais votado para presidente na cidade, com 14.659 votos (62,54%). São candidaturas que venceram em Santo Antônio da Platina sem precisar explicar o que fariam com o poder — venceram pelo nome, pelo rótulo, pela polarização. A abstenção ficou em 23,77% — dos 32.125 eleitores aptos, 7.636 não compareceram.

Diante desse cenário, um ponto precisa ser registrado: a esquerda consciente e coerente foi às urnas e fez o seu papel. Foram mais de 7 mil votos em Lula, quase 5 mil em Requião Filho e em Gleisi, mais de 3,5 mil em Dr. Rosinha. O eleitorado de esquerda platinense cumpriu sua função democrática. O que não encontrou foi representatividade política — e, no caso da candidatura de Valter do PT, adesão. O problema, portanto, não está no eleitorado: está na oferta de nomes que a esquerda local apresentou a ele.

Ficou claro, portanto, que a esquerda de Santo Antônio da Platina precisa se reinventar. Com mais de 7 mil eleitores escolhendo Lula na cidade, os votos existem — o que falta é um nome à altura para representá-los. Para o segundo turno que se aproxima, Santo Antônio da Platina precisa de uma nova liderança à esquerda, capaz de converter em projeto municipal a força eleitoral que o petismo nacional demonstrou ter no município.

Valter do PT teve sua chance — não uma, mas três — e o eleitorado respondeu a cada uma delas, agora com o agravante de que essa sequência consumiu quase R$ 200 mil declarados à Justiça Eleitoral, com a última rodada bancada majoritariamente por recursos públicos. Cabe agora à esquerda platinense repensar seus nomes, porque o eleitorado, esse, está provado que existe..

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