
A cinco dias do segundo turno, o caso Vorcaro deixou de ser boato de rede social e virou inquérito no STF. O que a PF já documentou, o que ainda é acusação e o que a campanha de Flávio Bolsonaro não consegue explicar.
Faltam cinco dias para o eleitor decidir entre Lula e Flávio Bolsonaro, e o país chega ao segundo turno com uma anomalia que nenhuma democracia deveria normalizar: o candidato que lidera parte das pesquisas é investigado no Supremo por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, e o tribunal que organiza a eleição tem como vice-presidente o ministro que relatou o inquérito contra ele.
Os números do caso não são interpretação. Em 22 de julho deste ano, o ministro André Mendonça abriu inquérito, a pedido da Polícia Federal e com aval da Procuradoria-Geral da República, para apurar o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A PF aponta que Flávio pediu e negociou cerca de US$ 24 milhões, algo como R$ 134 milhões, com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, e que pelo menos US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram efetivamente repassados em seis transferências entre fevereiro e maio de 2025.
O detalhe que muda a natureza do caso é o que veio antes. Durante meses, Flávio negou qualquer relação com o banqueiro. Em maio, depois que o Intercept publicou os áudios, ele admitiu a negociação e passou a dizer que o dinheiro foi para o filme e que todos os recursos eram privados. O Aos Fatos catalogou 43 declarações enganosas do senador sobre esse vínculo. Quarenta e três. Não é deslize de entrevista, é um método.
E o banqueiro não é figurante. Vorcaro está preso desde novembro de 2025, há mais de oito meses, ainda sem indiciamento, segundo a própria defesa. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central naquele mesmo novembro, deixando um rombo estimado entre R$ 47 bilhões e R$ 52 bilhões para o Fundo Garantidor de Créditos. É a maior quebra bancária da história recente do país, e ela tem nome, telefone e agenda de encontros.
O ELO QUE A CAMPANHA NÃO EXPLICA
O ponto mais grave do dossiê não é o filme. É Willer Tomaz. Advogado e empresário, Tomaz é investigado pela PF por suspeita de lavar o dinheiro desviado de aposentados e pensionistas do INSS na Operação Sem Desconto, esquema que subtraiu cerca de R$ 6,3 bilhões de 4,8 milhões de beneficiários entre 2019 e 2024.
Em 14 de outubro, o g1 revelou que a PF encontrou e-mails mostrando Flávio Bolsonaro cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária de uma empresa de Tomaz, o que, segundo os investigadores, lhe dava “acesso operacional relevante” e sustenta a hipótese de participação econômica de fato no negócio. A BBC mostrou que os dois fizeram cinco viagens internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025, incluindo um trecho no jatinho ligado a Vorcaro. Flávio nega ter dividido conta com Tomaz.
Aqui é preciso rigor, porque é aqui que a militância costuma escorregar. Não existe prova de que o dinheiro do filme tenha saído do INSS. O que existe, documentado, é a convivência, na mesma estrutura de pessoas e empresas, entre o dinheiro do banqueiro e o dinheiro desviado dos aposentados. Isso é grave o suficiente para não precisar de invenção.
O PADRÃO QUE SE REPETE
O caso Master não é um raio em céu limpo na trajetória de Flávio. É a repetição de um padrão. Em 2019, a BBC revelou que ele ocupou um cargo de 40 horas semanais na liderança do PPB, em Brasília, entre 2000 e 2002, enquanto cursava faculdade e fazia estágio no Rio. A franquia da Kopenhagen dele no Via Parque Shopping recebeu 1.512 depósitos em dinheiro vivo entre 2015 e 2018, segundo o Coaf, em valores incompatíveis com o faturamento. A PF investiga uma emenda parlamentar dele destinada a uma ONG que teria sido intermediada por Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, condenado por integrar a organização criminosa dos irmãos Brazão.
E há o episódio que explica muito do que veio depois: a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça, em abril de 2020, acusando o presidente de tentar interferir na Polícia Federal para proteger a própria família, no caso das rachadinhas.
Sobre as rachadinhas, um cuidado obrigatório. A denúncia do MP-RJ de 2019 apontou Flávio como chefe de uma organização criminosa de desvio de salários. Mas o STJ anulou a quebra de sigilo que sustentava parte da investigação e o STF invalidou os relatórios do Coaf. Não há condenação. Dizer “chefe de organização criminosa” como fato consumado é desinformação, e desinformação é o instrumento do outro lado.
A CONTA QUE NÃO FECHA
O dossiê que circula compara o rombo do Master com o sítio de Atibaia, o triplex do Guarujá, a Lava Jato e o Mensalão, sempre em múltiplos. Não publique isso. É comparação de coisas diferentes: o rombo do FGC é perda do sistema de garantia bancária, não dinheiro no bolso de alguém, e confrontá-lo com prejuízo estimado de esquema de corrupção é ginástica retórica. O caso já é forte sem precisar desse truque, e o truque entrega o flanco para a campanha adversária desmontar o texto inteiro.
O que se sustenta, com documento, é outra coisa: a proximidade entre o dinheiro privado que financiou a cinebiografia do pai e o dinheiro público desviado de aposentados, mediada pelas mesmas pessoas. E o empréstimo do BRB, banco público do Distrito Federal, de R$ 3,1 milhões para Flávio comprar uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília, em 2021, com juros de 3,71% ao ano contra média de 4,85% praticada pela própria instituição, em 360 parcelas, quitado em três anos. A PF investiga se houve favorecimento.
O TRIBUNAL E O RÉU
Nada disso é abstração eleitoral. Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, tomou posse na presidência do TSE em 12 de maio e conduz as eleições de 2026. André Mendonça, também indicado por Bolsonaro, é o vice e foi o relator do caso Master até a presidente do STF avocar os processos.
As mensagens apreendidas pela PF no celular de Vorcaro descrevem um contrato de honorários de até R$ 427 milhões para o escritório identificado como “Turma do KN”, a ser pago em caso de êxito em ações que destravariam R$ 8,5 bilhões em precatórios, além de pagamentos mensais de R$ 500 mil ao filho do ministro. O valor do contrato é previsto, não comprovadamente pago a Kassio, e essa distinção precisa aparecer no texto. Já o instituto Iter, fundado por Mendonça, firmou ao menos 52 contratos sem licitação com prefeituras, governos estaduais e tribunais, somando cerca de R$ 8,2 milhões em dois anos, segundo a Revista Fórum e a Agência Pública. Mendonça deixou a sociedade do instituto em 3 de setembro.
No Senado, a PF aponta que Ciro Nogueira, o “vice dos sonhos” de Flávio, recebia entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais de Vorcaro, o que chegaria a pelo menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025. Foi ele quem apresentou a Emenda 11 à PEC 65, a Emenda Master, que elevava a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A emenda foi rejeitada na CCJ do Senado por inconstitucionalidade.
O QUE NÃO SE PODE DIZER
O dossiê afirma que o vice de Flávio, Alfredo Gaspar, é investigado por estupro de vulnerável. Isso está desatualizado e é injusto. Em 6 de outubro, o ministro Gilmar Mendes arquivou a apuração, acolhendo manifestação da PGR, que não encontrou elementos suficientes para abrir inquérito. Publicar a acusação agora, sem o arquivamento, é o tipo de erro que destrói a credibilidade de uma coluna inteira.
Também é impreciso dizer que Flávio trocou 11 meses de mensagens com Vorcaro. A piauí fala em 11 meses de contato, com 110 registros e 14 ligações. O Estadão fala em três meses de conversas. A divergência é dos veículos, e o texto deve dizer isso, não escolher o número mais conveniente.
O PONTO
A eleição de 25 de outubro não é sobre o que a esquerda gostaria que fosse verdade. É sobre um conjunto de fatos documentados, com nomes, valores e datas, que colocam o candidato favorito a menos de três pontos de distância de um inquérito, de um banco quebrado e de um advogado investigado por lavar dinheiro de aposentados. Isso basta. Não precisa de múltiplo, não precisa de exagero, não precisa de acusação arquivada..

Falou muito e não disse nada. Bem típica a retórica.