Cartão Alimentação: o alerta foi dado há um ano — e a Prefeitura de Santo Antônio da Platina preferiu ignorar

Box Atacadista, Rede Molins,Supermercado Dalaqua,MH Supermercados e postos de combustível não aceitam mais o “Cartão Problema”. O servidor volta a ser refém de um benefício que existe no contracheque, mas não existe no caixa. O pior: tudo isso já tinha sido anunciado — inclusive por este portal.

Não é surpresa. É repetição. E repetição anunciada.
Na última semana, o cartão de alimentação dos servidores municipais de Santo Antônio da Platina voltou a colapsar — e agora em escala maior. Depois do MH Supermercados, que comunicou oficialmente que não aceita mais o cartão da Prefeitura, e do Supermercado Dalaqua, referência no município, que afixou aviso de suspensão temporária, chegaram as baixas mais pesadas: o Box Atacadista, maior atacarejo recém-inaugurado na cidade, e a Rede Molins, uma das redes supermercadistas mais tradicionais da região, também deixaram de aceitar o benefício. Nos postos de combustíveis, os avisos colados nas bombas escancaram o mesmo problema: “o Cartão da Prefeitura não está passando”.
Quem paga a conta, mais uma vez, é o servidor — aquele que depende do benefício para abastecer o carro de trabalho ou colocar comida na mesa de casa.

O alerta foi publicado. E foi ignorado.
A cena não deveria causar espanto a ninguém no Executivo. Em 16 de outubro de 2025, este portal publicou a matéria “O NOVO ‘CARTÃO PROBLEMA’ DA PREFEITURA DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA”, denunciando que, enquanto a gestão anunciava com pompa o novo contrato milionário, comerciantes e servidores já viviam um incômodo “déjà vu de calote”.
Na ocasião, a Prefeitura acabava de firmar com a O2 Plus Card Instituição de Pagamentos Ltda. o Contrato nº 163/2025, oriundo do Pregão Eletrônico nº 75/2025 — valor global de R$ 11.124.960,00, vigência de 12 meses, prorrogável por até dez anos. O apelido “Cartão Problema”, alertamos, não foi inventado em Santo Antônio da Platina: foi importado de Cachoeira do Sul (RS), onde a mesma empresa já colecionava reclamações de comerciantes e servidores.

O aviso estava escrito, publicado e documentado. A pergunta que fica é direta: o que o Executivo fez com ele?
O déjà vu do Face Card
O histórico platinense com cartões de alimentação é um capítulo que a gestão parece insistir em não ler. Antes da O2 Plus, o Face Card já havia deixado credores platinenses sem pagamento, gerando constrangimento e prejuízo. A licitação municipal dos cartões chegou a ser suspensa pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) em momento anterior. Somam-se os valores retidos na gestão anterior e a troca de empresa — tudo sem que o funcionalismo jamais recebesse uma resposta clara e definitiva.
O resultado é o que se vê hoje: um benefício que consta na lei, no contracheque e nos contratos, mas que, na hora de passar no caixa, simplesmente não passa.

O que dizem a empresa e a Prefeitura
O vale-alimentação está em atraso há cerca de um mês e meio com os estabelecimentos. A O2 Plus Card, procurada, alega bloqueio judicial em suas contas bancárias — justificativa que, convenhamos, não tranquiliza ninguém que depende do benefício para comer.
O secretário de Finanças, José Ricardo Mariano, afirma que o pagamento à empresa está em dia e que ela teria, contratualmente, até 45 dias para quitar o que deve. O secretário de Gestão, João Simões, diz ter feito uma “provocação” que antecede a notificação oficial. O prefeito Gil Martins adianta que, sem quitação em pouco tempo, estuda romper o contrato e pagar o vale direto no salário.
Enquanto isso, os comerciantes — que já amargam prejuízo — sugerem algo elementar: contratar uma empresa que tenha “bandeira” e “avalista”, que garanta o pagamento. Uma exigência básica de quem contrata serviço público com dinheiro público. E que deveria ter sido feita antes, não depois.

O efeito dominó nacional
O caso de Santo Antônio da Platina não é isolado. É a ponta de um padrão que se repete pelo país com a mesma empresa:
Poços de Caldas (MG) — o caso mais grave. Cerca de 7 mil servidores ficaram sem conseguir usar o cartão depois que supermercados, padarias e outros estabelecimentos suspenderam a aceitação por falta de repasse. A O2 Plus Card pediu rescisão consensual do contrato. O sindicato acionou a Justiça do Trabalho, que concedeu liminar (processo 0011171-75.2026.5.03.0149) obrigando a Prefeitura a pagar R$ 850 mensais diretamente aos servidores. Um supermercado registrou boletim de ocorrência por R$ 3 milhões em repasses não feitos; o prejuízo estimado na cidade chega a R$ 10 milhões. A Polícia Civil investiga.
Camboriú (SC) — a empresa não regularizou os repasses mesmo após notificação formal. A Prefeitura anunciou que pagará o benefício de agosto em pecúnia (direto na folha) e estuda rescindir o contrato.
Cachoeira do Sul (RS) — onde nasceu o apelido “Cartão Problema”. O Stok Center suspendeu o recebimento do cartão e a Prefeitura notificou a empresa em 4 de setembro.
Paraisópolis (MG) e Guaporé (RS) — citados no boletim de ocorrência registrado em Poços de Caldas como outros municípios com problemas junto à operadora.

Ou seja: a mesma O2 Plus Card, o mesmo padrão — repasse que não chega, comércio que suspende, servidor que fica na mão e prefeitura que corre atrás do prejuízo. Em pelo menos seis municípios, em pelo menos quatro estados.
A pergunta que o Executivo precisa responder
De que serve um contrato firmado, publicado, com número de pregão e valor milionário, se o cidadão que depende dele fica sem o benefício na ponta final?

O Café com Pimenta cobrou transparência sobre os valores retidos do Face Card e reafirmou que seguiria fiscalizando. Fiscalizou. Publicou. Alertou. O que não se pode aceitar é que o servidor continue sendo refém de um cartão que, na prática, não funciona — e que a gestão insista em repetir os mesmos erros como se ninguém tivesse avisado.
Este portal seguirá acompanhando, cobrando e dando voz aos servidores. E espera, agora, uma resposta à altura: não de “provocações” e notificações de última hora, mas de responsabilidade administrativa por decisões que geram prejuízo coletivo — e que, como ficou provado, poderiam ter sido evitadas..

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