
O primeiro debate entre os candidatos ao governo do Paraná começou com um vazio. Não o vazio de ideias — esse, convenhamos, já é conhecido.
O vazio era o púlpito de Sergio Moro (PL), reservado, iluminado e abandonado horas antes do programa. O líder das pesquisas desistiu do confronto da Band alegando um suposto “jogo combinado” entre PT e PSD. Não apresentou uma prova. Não precisava: o discurso já estava pronto, e há muito tempo.
O Paraná não é o Lula
Aqui está a pergunta que Moro não responde, porque não tem resposta: o que ele vai fazer pelo Paraná? Não pelo Brasil, não contra o governo federal, não contra Lula. Pelo estado que ele quer governar, pelos paranaenses que ele quer que votem nele. A disputa no Palácio Iguaçu não é contra Brasília. É sobre educação, saúde, infraestrutura, segurança, agronegócio, indústria. Sobre o dia a dia de quem mora aqui.
Moro não tem proposta. Tem um espantalho. Se tivesse ido ao debate, sua única fala seria “é culpa do Lula”. É o argumento único, repetido até a exaustão, vazio de conteúdo e vazio de futuro. Governador não governa contra o presidente — governa para o seu povo. E é exatamente isso que o senador parece não entender, ou pior, não se importar em entender.
O que os outros dois fizeram ontem
Enquanto Moro fugia, Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) fizeram o mínimo que se espera de quem pretende ocupar o Palácio Iguaçu: debateram o estado do Paraná. Trocaram farpas, sim, se atacaram, claro — é eleição. Mas o fizeram em torno de pautas, de posições, de visões para o Paraná. Requião Filho cobrou a palavra dada: “Palavra não faz curva. Palavra dada, palavra cumprida.” Sandro Alex, de forma certeira, mirou no ponto fraco do adversário ausente: “Para ser direita, tem que ter coragem. Para ser governador do Paraná, não pode ser covarde.”
Não é retórica vazia. É a constatação de que o líder da corrida não teve coragem de encarar o eleitor. O púlpito vazio não foi só um detalhe de produção da Band — foi o retrato de uma candidatura que prefere o ataque remoto ao confronto de ideias.
A eleição pode mudar de rumo
E aqui entra o dado que a campanha de Moro deveria temer. A primeira pesquisa após as convenções, da Índice Inteligência, divulgada no próprio domingo (9/8), mostra o cenário que não estava no roteiro do PL: Moro lidera com 35,3%, mas Sandro Alex aparece em segundo, com 27,6%, e Requião Filho vem logo atrás, com 19,5%. A diferença entre o líder e o segundo colocado caiu para 7,7 pontos percentuais.
Mais do que isso: no cenário de segundo turno testado pelo PSD, Sandro Alex marca 38,5% contra 42,5% de Moro — empate técnico dentro da margem de erro. Ou seja, a disputa que parecia decidida está, na prática, aberta. E o que ontem ficou claro é que Moro não está ajudando a si mesmo. Cada ausência, cada fuga de debate, cada discurso que só aponta o dedo para Brasília aproxima o eleitor de quem, ao menos, aceita falar do Paraná.
O recado do púlpito vazio
O eleitor paranaense não é bobo. Percebe quando um candidato tem projeto e quando tem apenas inimigo. Moro construiu sua campanha inteira em torno de um nome: Lula. Mas o Paraná não vota em nome de guerra — vota em quem vai resolver os problemas do estado. E problemas não se resolvem com fuga de debate, com acusação sem prova ou com discurso pronto de quem não tem o que dizer.
O púlpito vazio de ontem pode ter sido a imagem mais honesta da campanha de Moro até aqui: um candidato que não aparece quando o assunto é o Paraná. E se a tendência das pesquisas se confirmar, essa ausência pode custar caro — muito mais caro do que qualquer “jogo combinado” que ele inventou para justificar a covardia.
O Paraná está de olho. E o Paraná está cobrando resposta.
