Se está passando fome, mude de emprego. Se não gostou, mude o voto.

A mulher que mandou um professor faminto procurar outra ocupação vai comandar a Educação do Paraná a partir de 2027. Não é castigo do céu, nem golpe do acaso: é a conta que a urna fechou — e que agora precisa ser cobrada todos os dias.

Era 24 de outubro de 2024. Fátima Gavioli comandava a Secretaria de Educação de Goiás, no governo Ronaldo Caiado. Numa live, começou a ler mensagens de profissionais da rede. Uma professora escreveu que o problema não era só o aumento: era passar fome.
A resposta está gravada:
“Aí tem que deixar o serviço. Está passando fome? Tem que achar um trabalho que ganha mais, porque na educação você já entrou sabendo quanto seria seu salário.”

Não parou ali. Outra educadora reclamou que o contrato temporário não lhe dava nem folga para levar o filho ao médico. A secretária respondeu que, se é assim, “você precisa sair, porque a lei é federal”.
Duas frases. Duas sentenças. Em nenhuma delas existe a palavra “Estado”, “carreira”, “valorização” ou “rede”. Existe apenas o vocabulário de um contrato privado: entrou sabendo, então aguente; não serve, então saia. Como se ensinar crianças paranaenses fosse um free-lance qualquer, e como se fome fosse detalhe de planilha.

O currículo tem número. E tem recado.
Em 27 de outubro de 2026, Sergio Moro anunciou Gavioli como sua secretária da Educação. Segundo nome do secretariado, ao lado de Priscila Saldanha na Fazenda. Assume em janeiro.
Ela tem currículo, e é preciso reconhecer: Rondônia entre 2014 e 2016, Goiás de 2019 a março de 2026, doutorado em Psicologia da Educação, passagem pelo Consed. Em Goiás, o Ideb do ensino médio subiu de 4,3 (2017) para 5,0 (2025) — recorde do estado. O Paraná, no mesmo indicador, fez 5,1. Ou seja: veio para cá uma gestora que entregou avanço real e chegou, ainda assim, atrás do Paraná que vai administrar. Isso é fato, não provocação.

O outro lado do currículo também é fato. Em outubro de 2024, o mesmo mês da live, a Assembleia de Goiás aprovou mudanças no plano de carreira que sindicatos classificaram como perda de direitos e precarização. A fala sobre fome virou nota de repúdio do Sindsepem/Val, que acusou a secretária de desrespeitar a categoria. Em março de 2026 ela saiu do cargo para disputar a Câmara Federal pelo PSD: 54.954 votos, suplente. Em outubro, voltou à secretaria goiana pelas mãos de Daniel Vilela. Três semanas depois, estava escalada para Curitiba.
“Foi o povo que escolheu” — sim, foi
A frase que a esquerda odeia ouvir e que a direita adora usar está correta na essência: governo eleito escolhe seu time, e o time é a cara de quem escolheu. Moro foi eleito governador. Gavioli é escolha dele, e ele a defendEU publicamente pela experiência de gestão. Não há surpresa, não há traição, não há acidente administrativo. Há projeto.

E o projeto é explícito: entre os três eixos do plano de governo está a “valorização dos professores”. É esse o ponto que arde. Não se nomeia para a Educação de um estado alguém que, dois anos antes, disse a um professor faminto que a porta de saída era a solução — a menos que se acredite, no fundo, que o problema nunca foi o salário, e sim a expectativa do professor.
Isso é visão de mundo, não deslize de live. E visão de mundo se vota.

Mas consequência do voto não é sentença de silêncio
Aqui começa a parte que o eleitor de Moro não vai gostar, e o eleitor de oposição também não: reconhecer a legitimidade da escolha não é aceitar o discurso. Democracia não distribui culpa, distribui consequência — e consequência não anula direito.
Quem votou em Moro por segurança pública, por gestão ou por qualquer outra razão tem todo o direito de dizer, agora, que “valorização” não combina com “se está passando fome, saia”. Quem não votou nele tem o dever de cobrar sem histrionismo e com dados na mão: piso, carreira, contrato temporário, tempo de planejamento, condições de sala de aula, saúde mental de quem está em pé na frente de quarenta adolescentes.
A conta de luz do professor não é paga com Ideb. 5,0 é número bonito em relatório e alívio zero no fim do mês. Se o Paraná quer mesmo 5,1 e além, vai precisar de gente que não precise escolher entre dar aula e comer — e isso não se resolve com palestra de gestão.

E há um detalhe que a nova secretária talvez descubra: o Paraná tem sindicato organizado, professores com memória e uma rede estadual grande. A live de outubro de 2024 já está nos arquivos. Ela vai ouvir essa frase de volta em cada assembleia, em cada greve, em cada audiência pública. Não porque alguém inventou. Porque ela disse.

A pimenta final
“Na educação você já entrou sabendo quanto seria seu salário.” Verdade pela metade. Ninguém entra sabendo que o reajuste vai ser parcelado, que o plano de carreira vai ser reescrito, que o contrato vai vencer em dezembro, que a meta vai mudar de nome em abril. Isso não está no edital.
Então fica o combinado, secretária: o eleitor também entrou sabendo. Sabia do seu nome, do seu histórico e da sua frase quando depositou o voto — e a partir de 2027 vai saber exatamente a quem cobrar.
Está passando fome? A resposta de 2024 foi “mude de emprego”.
A resposta de 2026 é outra: mude o voto. E enquanto ele não muda, cobre. Todos os dias..

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