
No final da tarde deste 02 de fevereiro de 2026 e no início da noite, o Município de Santo Antônio da Platina promoveu a entrega de materiais escolares destinados às crianças da rede municipal de ensino.
É importante deixar claro, desde já: ninguém questiona a importância da entrega do material escolar. Pelo contrário. Trata-se de uma política pública necessária, que deve ser mantida e ampliada nos próximos anos. As crianças merecem — e muito — receber esse suporte.
O que se questiona aqui não é o material, mas a forma.
Relatos e imagens que circularam ao longo da tarde e da noite mostram filas extensas, pessoas aguardando por horas, mães e avós carregando caixas pesadas, trabalhadores deixando seus empregos mais cedo, idosos enfrentando longas caminhadas e crianças expostas a um cenário de tumulto e desgaste físico e emocional.
Em tese, a situação poderia ter sido facilmente evitada. Bastaria que os materiais fossem entregues diretamente nas escolas e creches, dentro das salas de aula, como ocorre em diversas redes de ensino — inclusive estaduais e em municípios vizinhos. Uma logística simples, eficiente e, sobretudo, humana.
No entanto, optou-se por um modelo centralizado, com grande concentração de pessoas, ampla exposição pública e forte presença de registros visuais. Para muitos pais e responsáveis, o sentimento não foi de celebração, mas de constrangimento.
Não são poucos os comentários que descrevem a situação como humilhante, especialmente para famílias em situação de vulnerabilidade social, que, em tese, acabaram transformadas em figurantes de um espetáculo político.
E é justamente nesse ponto que reside a crítica central.
Em tese, o evento revela um aproveitamento político inadequado da pobreza, algo que fere não apenas o bom senso administrativo, mas princípios básicos da dignidade da pessoa humana. A política pública, quando correta, deve alcançar o cidadão, e não expô-lo.
Enquanto isso, outras filas seguem invisíveis no município: a fila por consultas com médicos especialistas; a fila por exames que não saem; a fila de protocolos perdidos; a fila de pessoas que aguardam soluções básicas de saúde.
Em tese, a gestão municipal passou grande parte de 2025 sem apresentar projetos estruturantes que impactassem de forma efetiva a vida da população platinense. Diante disso, a forma como se deu a entrega do material escolar pode ser interpretada, por parte da população, como um gesto de desespero político, típico de quem precisa aparecer quando faltam resultados concretos.
Reforçamos: as crianças merecem o material. O que elas — e seus pais — não merecem é a humilhação, nem o uso simbólico de sua necessidade como ferramenta de autopromoção ou campanha antecipada, ainda que isso ocorra apenas em tese.
Diante do ocorrido, espera-se que o gestor público municipal, no uso de suas atribuições legais e institucionais, no mínimo, venha a público pedir perdão à população mais vulnerável, que foi exposta a uma situação de desgaste, constrangimento e, em tese, ridicularização coletiva. Reconhecer o erro, ainda que administrativo, é um gesto de grandeza, respeito e responsabilidade pública — valores indispensáveis a quem governa para todos.
Política pública de verdade não precisa de palco, nem de fila, nem de câmera. Precisa de planejamento, respeito e dignidade.
E isso, infelizmente, foi o que faltou neste episódio..
