
Em Santo Antônio da Platina, o discurso oficial insiste em falar de modernização, ajuste e responsabilidade fiscal. Na prática, porém, o que se vê é um cenário indigesto:
a desvalorização explícita do servidor público de carreira, aquele que sustenta a máquina administrativa no dia a dia, enquanto privilégios florescem para poucos, embalados pelo chamado pacotaço da reforma administrativa.
O clima dentro do funcionalismo é de insegurança e ameaça. Servidores concursados, que ingressaram por mérito e dedicam anos de trabalho ao município, hoje convivem com o medo constante: medo de perder direitos, de serem substituídos, de se tornarem peças descartáveis em um jogo político que não respeita a história nem a função social do serviço público.
E a situação se torna ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado aos motoristas do quadro municipal. Esses servidores, essenciais ao funcionamento da saúde, da assistência social e de diversos setores administrativos, têm seus direitos, em tese, cessados pela gestão do prefeito Gilson de Jesus Esteves, a partir da edição do Decreto Municipal nº 022/2026, publicado em 27 de janeiro de 2026, no Paço Municipal Dr. Alício Dias dos Reis.
O decreto, assinado pelo próprio prefeito Gilson de Jesus Esteves, restringe de forma objetiva e direta o direito às diárias dos motoristas, mesmo quando submetidos a longas jornadas, deslocamentos constantes e desgaste físico diário. O texto legal é claro e não deixa margem para interpretação favorável ao servidor:
“Art. 5º – Os servidores ocupantes do cargo de motorista somente terão direito a diárias quando, no exercício da função, o deslocamento exigir pernoite ou despesas adicionais de hospedagem ou transporte urbano.”
Na prática, o que se impõe é uma lógica perversa: motoristas que passam horas na estrada, transportando pacientes, servidores e demandas do município, ficam sem qualquer indenização, mesmo arcando com alimentação fora do domicílio, fadiga física e riscos inerentes à função. O serviço permanece, a responsabilidade aumenta — o direito desaparece.
Enquanto isso, do outro lado do balcão, os benefícios seguem blindados. A Câmara Municipal, sob a presidência que optou por promulgar o já apelidado “vale-vergonha”, garantiu para vereadores vale-alimentação e outras vantagens, num gesto que soa como deboche diante da realidade dos servidores que veem seus direitos escorrerem pelo ralo. É a institucionalização do contraste: para poucos, conforto; para muitos, sacrifício.
Não se trata apenas de números ou decretos frios. Trata-se de prioridades políticas. Quando uma gestão escolhe cortar diárias de motoristas — justamente quem está na linha de frente do serviço público — e, ao mesmo tempo, preserva privilégios no alto escalão, ela envia uma mensagem inequívoca: o servidor não é parceiro, é custo. E custo, nessa lógica distorcida, deve ser eliminado.
O mais grave é que esse modelo não começou errado por acaso — ele nasceu errado por escolha. E, como toda escolha mal feita, continua produzindo efeitos nocivos para a população. Servidor desvalorizado significa serviço público fragilizado. Fragilizar o serviço público é atingir diretamente o cidadão que depende da saúde, da educação, da assistência social e da administração municipal funcionando com dignidade.
Valorizar o servidor não é favor, é obrigação constitucional, moral e administrativa. Governar não é proteger castas políticas, mas equilibrar responsabilidades com justiça. O que se vê hoje em Santo Antônio da Platina é um alerta vermelho: quando a balança pende sempre para o mesmo lado, quem paga a conta não é a política — é a cidade inteira.
E Café com Pimenta é assim mesmo: arde, mas desperta. Talvez esteja mais do que na hora de a gestão acordar — antes que o gosto amargo se torne permanente para os servidores e para toda a população platinense.
